Há noites em que a preocupação não deixa dormir. Falta o pão, falta a saúde, falta a paz. Caminhamos por um vale difícil — uma doença, um luto, um filho distante — e o coração pergunta, em silêncio, se o Senhor ainda está perto.
Meu irmão, minha irmã: o Salmo 23 não é um amuleto nem uma proteção automática. É uma oração de confiança. A Igreja o reza há séculos, não para obter um efeito por si só, mas para entregar a vida nas mãos do Bom Pastor.
Origem e sentido: o Senhor é o meu pastor
A tradição atribui este salmo a Davi, o pastor que se tornou rei de Israel. Ele conhecia o campo: o rebanho precisa de pasto, de água e de alguém que vá à frente e não o abandone quando a noite cai. Por isso a primeira frase é tão simples e tão alta: o Senhor é o pastor que me conduz; não me falta coisa alguma.
Não se trata de negar a necessidade real. Trata-se de reconhecer a Divina Providência. Quem se deixa conduzir por Deus descobre que a graça chega — às vezes no prado verdejante, às vezes só na coragem para o próximo passo. A confiança cristã não é ignorar a conta, a fila do hospital ou a cadeira vazia à mesa. É crer que, mesmo ali, há um Pastor.
O salmo fala do vale tenebroso. Todo querido leitor já atravessou um. A fé católica não promete uma vida sem vale. Promete presença: «estais comigo com bastão e com cajado». O bastão e o cajado do pastor servem para guiar e para defender. O Senhor não tira sempre o caminho difícil; Ele caminha nele conosco. Por isso a confiança não é otimismo vazio: é a misericórdia que nos acompanha.
Há também a mesa preparada, o óleo sobre a cabeça, o cálice que transborda. São imagens de honra e de bênção, mesmo «à vista do inimigo». Sem forçar o texto a dizer o que ele ainda não dizia no tempo de Davi, a Igreja reconhece neste cuidado o mesmo Deus que nos alimenta na Eucaristia e nos unge nos sacramentos. A mesa do salmo nos ensina que a providência de Deus não espera o inimigo desaparecer para nos servir.
No Evangelho segundo João, Jesus se apresenta como o Bom Pastor, aquele que dá a vida pelas ovelhas (Jo 10,11). Ele conhece cada uma pelo nome. O Salmo 23, lido na fé da Igreja, encontra o seu rosto em Cristo. Não transformamos Davi em evangelista: reconhecemos que toda a Escritura aponta para Jesus. E o desfecho do salmo é morada, não só passagem: «na casa do Senhor, habitarei pelos tempos infinitos». Confiança que atravessa esta vida e se abre à eternidade. O refúgio definitivo é a casa do Pai.
Na liturgia da Igreja no Brasil, este texto aparece como Salmo 22, na numeração da Vulgata. O povo o procura, com razão, como Salmo 23, número da tradição hebraica. É o mesmo poema, a mesma oração.

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Respire fundo, feche os olhos por um instante e reze comigo agora esta oração com fé.
Salmo 23 (Bíblia da CNBB)
1. O Senhor é o pastor que me conduz; não me falta coisa alguma. 2. Pelos prados e campinas verdejantes ele me leva a descansar. Para as águas repousantes me encaminha, 3. e restaura as minhas forças. Ele me guia no caminho mais seguro, pela honra do seu nome. 4. Mesmo que eu passe pelo vale tenebroso, nenhum mal eu temerei; estais comigo com bastão e com cajado; eles me dão a segurança! 5. Preparais à minha frente uma mesa, bem à vista do inimigo, e com óleo vós ungis minha cabeça; o meu cálice transborda. 6. Felicidade e todo bem hão de seguir-me por toda a minha vida e, na casa do Senhor, habitarei pelos tempos infinitos.
Texto da Tradução Oficial da CNBB, usada na liturgia da Igreja no Brasil.
Como rezar o Salmo 23
- Faça o sinal da cruz. Leia o salmo devagar, em voz baixa, como quem escuta o Senhor — não como quem recita um texto para obter um efeito automático.
- Se puder, reze em voz alta em casa. Proclamar a Palavra é renovar a confiança em Deus. Não se trata de um gesto para limpar o ar da casa: é fé que se faz voz, na sala, no quarto, ao lado de quem sofre.
- Pare no vale tenebroso. Diga ao Senhor, com palavras simples, o nome da sua preocupação. Entregue-a à misericórdia d’Ele e peça a graça de não caminhar sozinho.
- Termine com o Glória ao Pai, como a Igreja faz ao rezar os salmos: a Palavra volta ao céu em louvor.
- Se a família estiver junta, um lê os versículos e os outros respondem o primeiro: «O Senhor é o pastor que me conduz; não me falta coisa alguma.»
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